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domingo, 28 de março de 2021

Мегаполисы (2020)


É possível apenas no pesadelo que aquela claridade infinita e tão reluzente tenha dado lugar às trevas de um mundo caótico. Na madrugada, o cenário de colapso toma conta do subconsciente da dama d'orquestra. Era como no clipe de Valery e Albina onde a imponente “Megapolis” (mesmo que não fossem aqueles prédios iluminados na noite nublada e misteriosa à margem do Rio Pinheiros e sim num dia apocalíptico, no centro do nosso trabalho e da conexão entre as almas) está a se desmoronar e o caos tenta ameaçar um amor para as telas que parecia inabalável. 


Nas sinapses da più bella eram meteoros constantes que ameaçavam sua vida, quando simplesmente caminhava pelos arredores da região com sua graça. Não bastou regar com um pouco de esperança aquele lugar mergulhado em desgraça que aqueles corpos caíam do céu a ameaçar tudo aquilo. 


Eis que de relance um meteorito toca rapidamente e de forma paralela sua harmoniosa face e comete o pecado de romper parte do palor de sua tez. O mundo havia virado o caos para aquela dama que não sabia o que restaria daquela beleza artística. Mas era preciso assim como Gogol pronunciar as palavras em latim para lutar contra Viy, e que assim eu as declamasse em honra daquela mulher de cabelos dourados. 


Era notável entre a chuva de meteoros o meu aproximar rapidamente ao ler cada verso como se fosse o último. Não sabíamos o efeito que teria, mesmo assim foi possível observar que o céu voltava a se abrir e os raios solares refletiam-se novamente nos fios da dama. Foi assim, um choro sincero que a perseguiu até o momento do acordar. Mas por que ela se olhava no espelho e a ferida continuava ali? A musa inspiradora agora sabia que havia entrado no mundo paralelo de um trovador moderno sem que ninguém a tivesse contado? 


Seu andar padronizado e semblante ensaiado agora dava lugar a um cruzar desengonçado de pernas e sua face era um mar de emoções visíveis a qualquer humano. Senti sua presença, seu beijo de novela, suas lágrimas escorrendo também no meu rosto como seria dali em diante. O meu semblante apesar de incrédulo, despreparado e imóvel sabia do enredo a ser construído. A cicatriz, as palavras daquele meu texto na mente da dama d'orquestra. A cultura erudita continuava ali, mas sua gestora estava irreconhecível. O seu pedido como quem implorava sem qualquer comedimento pela nossa união era o destino me concedendo mais uma vitória virtual e desesperadora no campo da inspiração. De histórias bonitas e de mistério esse caminho é construído. Em alguma memória elas precisam estar guardadas. Ну всё, аминь.


E todas essas linhas pela oferta de um sorriso da musa.

Valery Meladze & Albina Djanavaeva – «Мегаполисы»