As notas de jazz começam com Ella Fitzgerald, não mais em Paris com Caro Emerald, mas ainda era a mesma Dream a Little Dream of Me que embalava na primorosa cena. Aquela dama de têxtil que fazia a moda também estava no divã divagando sobre a vida com um cálice de vinho nas mãos, curiosamente com um vestido da mesma cor e um tradicional sapato preto. Lembro-me de que disse à ela que aquela cena poderia ser eternizada e que tal harmonia e calmaria nunca poderia ser cessada. O conjunto da beleza europeia dela com o jazz anos 50 dos EUA era uma belíssima união em prol da arte.
Em Smoke Gets In Your Eyes não era mais a nova versão de Bovy e sim os The Platters e um novo filme que se iniciava na minha mente. Cenas filmadas em preto e branco, enquanto saia com a dama de Capitol Hill (espero que nossa presença ali não tenha sido como a do casal espião de The Americans) e entrávamos em um típico Plymouth dos anos 50 preto com um motorista particular que nos esperava ali.
Aquele Deep State já não parecia mais tão ameaçador enquanto estava acompanhado pelos traços doces e seu olhar misterioso como a arte francesa, num verde suave como as colinas dos vinhos franceses. Mas ainda estávamos no Plymouth em Washington DC, enquanto a formosa senhorita ajeitava seu discreto chapéu branco, que carregava pequenas flores também brancas ao centro, retocava sua maquiagem, enquanto Elvis e Love me Tender embalavam nossos olhares quando estávamos de mãos dadas, nas quais as suas delicadas estavam cobertas por uma luva branca de seda. O gradiente rosa do seu pequeno casaco e da saia infelizmente não eram captados pela câmera da época, somente sua roupa branca e sapatos pretos eram fielmente retratados na tonalidade real dentro da cena. Também o piano de Ray Charles era uma perfeita harmonia nas trocas de cenas entre o nosso divagar no divã e imersão nos anos 1950. Víamos a Casa Branca e seu longo jardim pela janela... Nada nos preocupava ali, apenas tirávamos fotos e apreciavamos sua arquitetura.
Lembro-me de seu sorriso enigmático, diplomático, sempre no mesmo tom e que sequer a canção de Nat King Cole era capaz de alterar. Mas era sim um semblante tranquilo, contido, porém de uma pessoa que estava profundamente satisfeita com o que tinha conseguido. Assim como eu parecia que ela pensava nos momentos que viriam após chegarmos em nossa casa na Virgínia, mais próxima de DC do que Richmond, dançando suavemente Cheek to Cheek ao centro da sala até que chegássemos em nossos tempos atuais para assim enchermos mais uma taça de vinho e continuarmos juntos nossa jornada artística.
Mas as insistentes regras e convenções da cinzenta realidade insistem em fugir dos tempos harmoniosos.

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