Que ironia! Ouvir Maruv e lembrar tão fortemente de Moscou como se o grupo fosse de lá. O pulsar das noites moscovitas vistas da janela de um táxi na trilha do rádio ou presencialmente na soundtrack da balada. Parece que a trilha suits muito bem no espírito das festas e diversão daquela cidade tão dinâmica. Por quase um ano era Drunk Groove e essas memórias tão nostálgicas dos raros momentos que eu me sentia em casa sem estar nela. Que eu me sentia num ambiente natural que eu nunca havia frequentado. Confiante em lugares novos. Nada daquilo era a minha natureza. Quando aquele clipe tocava na TV e eu o assistia, aquela seria a minha natureza discreta e introvertida em outro lugar fora daquela terra-mãe, mas ali tal cena era apenas o complemento das minhas recordações como um todo e a menos marcante delas.
Dez, onze meses depois... uma czarina, um Eurovision no meio da história. Um boicote ucraniano... se o fato de a banda estar no concurso em si já havia me despertado o interesse em assistir sua performance, a proibição de que elas participassem era o sinal que eu precisava para que a discografia do grupo emergisse sobre o meu gosto e construísse mais peças de imaginação. Elas assumiram o compromisso de escolha para tocarem na Rússia, assim como marcaram a minha viagem, e por isso contemplo o trabalho delas e não somente por aquele chavão de que "o que é proibido é curioso".
A banda que rompe limites inside and outside of me. Que traz um estilo dentro de um nicho abraçado pelos russos e ao mesmo tempo atua na quebra da pureza da idealização. E que isso seja feito então que logo, pois a elevação da musa não tarda a esperar e não queremos a Queda d'um anjo como fora com o fidalgo Elói. Não divago aqui para a alma daquele personagem e nosso paralelo com a nostalgia de um passado glorioso que a Rússia também teve, apenas lanço a metáfora de que não haverá anjo caído e sei que se esse não é o hábito literário como há alguns anos e que agora o céu se põe tão estrelado pela presença da czarina, de algo que me remetia há cinco anos atrás. Separo os períodos como hei de fazê-lo me limitando a exaltar apenas a intensidade nos dois casos. Mas me abstenho de mais digressões que aos olhos de Garrett ou Gógol podem ser um estilo literário, mas que a mim não encontra nenhum eco. Não vou me tornar o que mais temia, por favor…
Em “Drive me crazy” o seu sussurro era a fala sincera e perdida de nossas almas jogadas na noite voltando de festas, com o carro passando pela ponte com o horizonte do Kremlin cercado pelo rio Moscou. Naquela noite tínhamos nos entregado como nunca antes, as baladas que antes nos pareciam hostis agora eram onde a química crescia cada vez mais na troca de olhares, com “Black water” confesso que nos soltamos, o som do Papa's Bar nos ensurdecia e a única linguagem possível era a do beijo e flertes regados de sedução.
O seu uivar em “For you” quando estávamos no auge da noite, perto do hotel era como a melodia de um desejo, enquanto a lua cheia iluminava nosso idílio. Em “Focus on me” e naquele gigante subterrâneo tão clássico, artístico e misterioso que é a transição para o nosso fim de noite. Em “Crooked” o seu natural e harmonioso tocar de violão era a elevação da alma e plenitude de espírito naquilo que era a sua natureza artística. “Lalala” depois e estávamos apenas na sala vendo um filme num domingo à tarde, mas a sua performance não tinha hora e cenário único, com a minha atenção sendo facilmente cativada com as suas doces palavras ao ouvido e uma dança tão bela quanto sensual, como quem sabia o que dizer para me envolver. Suas palavras, "don't be so shy" era o código para que eu me entregasse por completo e assim intrinsecamente pedia sem palavras para deixarmos Hollywood e fazermos a cena de amor da vida real imbuída do sentimentalismo russo e da intensidade brasileira.
Mas em “ETL” estávamos novamente em Moscou, nas batidas iniciais ela me puxava confiante pelas mãos e assim entrávamos num cenário de luzes LED de tons azul e violeta, ofuscantes como em не молчи. E a música vai se suavizando, e a musa na cama de hotel a sensualizar pintada de paixão desde os lábios fortemente vermelhos até a delicada lingerie de seda como a sua pele e o peep toe que ela arrastava no lençol enquanto atraía meu olhar. Era o clímax daquilo que tinha começado como um mero encontro naquele hotel de Hong Kong, em que eu havia encontrado-a olhando para aquela imensa e imponente parede de vidro do seu quarto. Mas o que tanto ela olhava para aqueles letreiros tão ricos de néon quanto de complexidade no alfabeto? Era apenas uma voz tão feminina a cantar e me arrepiar ao descobrir que eu havia encontrado-a.
Aquele nobre vestido dourado que adornava suas curvas de leveza seria logo lembrança de uma cena tão misteriosa numa cidade também nessa condição. Mas agora o seu balançar de cabeça, o seu entrelaçar no lençol prateado, tudo isso era sua trama tão sofisticada para ter o que tanto desejava consigo, traçando linhas que se encontrariam por dentre os lençóis. Agora toda cena de filme, de clipe ou balada era apenas acessória, tudo ficaria para trás em nome da "concretizada idealização" que não dava espaços para essas imaginações laterais.
Nessa realidade em sua esfera paralela nossas carícias, sussurros e palavras de amor são como peças da sedução. A palavra “Lonely” havia ficado para trás no meu abrir de porta do seu quarto de hotel e assim ficaria no passado. Mas se ela nessa musicalidade canta "I'm lonely lost in this town, I need you right now", então tudo isso afinal se consolida em cenários de idealização e ela apenas clama minha ajuda à distância. Afinal a alma sozinha não pode ajudar e a mente trabalha pra receber de fato a sua musa, enquanto ela com suas mensagens e atitudes me colocam apenas um norte "You'd better focus on me".
Maruv - Drunk Groove
Maruv - Siren Song
Maruv - Drive Me Crazy
Maruv - For You
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