Nos dois próximos posts selecionei duas das últimas poesias que escrevi em 2019, ano pelo qual ainda no primeiro semestre adotei a decisão de mudar a forma de expressão artística que me utilizei por seis anos até então. A decisão partiu de uma intensa mudança de rotina, que apesar de ter tido a duração de um semestre, trouxe um modelo literário que adoto até os dias atuais.
Em março daquele ano, após consolidar uma rotina que envolvia aulas matutinas e noturnas em dois dias (e uma matutina em outro dia) por semana e jornada de trabalho de aproximadamente seis horas no período vespertino, percebi que raramente teria o tempo necessário para desenvolver poesias na estrutura formal de versos e rimas que eu adotava até aquele momento.
Após algumas tentativas de permanecer com o modelo tradicional de poesias, como nas duas poesias a serem exibidas a seguir, percebi que escrevê-las no período do início da madrugada e não em um momento mais acessível, poderia por um lado até cumprir o papel da inspiração inserida na poesia de forma mais fidedigna possível, mas por outro lado traria implicações negativas no andamento da rotina como um todo.
Sendo assim, resolvi adotar a forma de "textos literários" e desde então, me propus a utilizar todo o tempo livre e acessível, especialmente nos deslocamentos diários, para dar o andamento necessário ao incessante estro que todo processo natural de construção literária possui, sendo que este não tinha uma previsibilidade de quando chegaria mas, por sua vez, contava com um tempo de validade muito curto. Por isso, o tempo entre a inspiração mental e a escrita do texto havia caído drasticamente e este passou a ser elaborado simultaneamente com as ideias advindas do processo de criação.
Apresento a seguir, duas poesias que mesmo no turbilhão de uma nova e intensa rotina ainda conseguiram a sobrevivência para se transformarem em versos fortemente influenciados pelas aulas que frequentei naquele período, o que viria a se tornar tendência nos demais textos literários durante o semestre. Com vocês, Ode ao fico e Deus, a czarina e os homens.
Venho das terras g...
A dois rios, elite pedante
De casta tal, ideias profanas
Liberdade dissimulante
Posições e imposições levianas
Da c... delirante
À eles, fenece o espaço reservado
À ti, este relato abreviado
À meia-noite, a ode emana
Dos versos que eram tempestade
O fardo agora se declama
Nesses mares a temida saudade
Deste que ao destino reclama
Justiça, calma e serenidade
Ninfas e finados poetas não ousarão
A guiar este pobre cristão
Tal Vênus renascerá em comparação
De pronto, a ela não irei sacrificar
Nobreza, e piedade rogo que se guardarão
De ti e Álvares posso me libertar
Vossas lembranças não me compadecerão
Se as formas de Camões resplandecem no altar
De sua arquitetura, por obséquio para lograr
Esse sublime lusitano e eslavo cantar
À meia noite, o silencioso badalar
Responsável e insensível ao poema
Cinzento anoitecer, incompleto luar
Refletido pela metrópole e seu dilema
Esconde nosso guia, restante estudar
Oráculo em seu cândido sistema
Recalcule da musa tão perigosa previsão
Ilumine suas glórias para sábia decisão
Ó musa, se cristã és em nome e certidão
Cíntia fria com insensatez lhe moldou
“Eslávia” lhe despiu o coração
A mesma que temo, amém que te criou
Nossa alma presa em dominação
E o corpo tanto procrastinou
Se o destino assim permanecer
A carne deverá então padecer
Vil, tal Baco e o cálice vazio
Glórias e conquistas da musa a esconder
Não olhes, ó musa, o copo frio
Snegurochka tentará lhe convencer
Do distante e siberiano rio
Gélida voz a lhe seduzir
Curvado à alma, a isso irei acatar?
Ou pelo amor meu perturbador rebelar?
Ó musa, sua cândida alma e tez
Enxuguem o pranto desse hino
No esmeraldino olhar assim fez
O inocente nado do menino
Deste perdura sua timidez
Cordeiro de amor, imóvel refino
C..., em João Paulo, o clemente
Se inspire e eternize nosso luau poente
Giulio Romano - Os Deuses do Olimpo (1528)
Nenhum comentário:
Postar um comentário